Mineira que viveu 60 anos alimentando-se apenas da Eucaristia tem história marcada por fé e processo de beatificação

Destaque Notícias Portal Miradouro

Caso de Floripes Dornelas de Jesus, conhecida como Lola, segue despertando interesse religioso, histórico e científico em Minas Gerais

A história de Floripes Dornelas de Jesus, conhecida como Lola, continua despertando a atenção de fiéis, pesquisadores e visitantes. Natural de Mercês, na Zona da Mata mineira, ela ficou conhecida por um fenômeno extraordinário relatado por familiares, religiosos e peregrinos: durante cerca de 60 anos, teria vivido alimentando-se exclusivamente da Sagrada Eucaristia.

Na tradição católica, esse fenômeno é chamado de inédia eucarística, expressão utilizada para descrever casos em que uma pessoa afirma sobreviver por longos períodos sem ingerir alimentos ou água, sustentando-se apenas pela comunhão. A Igreja Católica trata relatos dessa natureza com cautela e os considera possíveis fenômenos místicos, submetidos à investigação antes de qualquer reconhecimento oficial.

Continue lendo clicando em

Uma vida transformada por um acidente

Lola nasceu em 1913, em Mercês (MG), e morreu em 1999, aos 85 anos, em Rio Pomba (MG).

Segundo relatos históricos, ainda na adolescência ela sofreu uma queda de um pé de jabuticaba, lesionando gravemente a coluna. O acidente a deixou acamada pelo restante da vida.

Foi a partir da Sexta-feira da Paixão de 1943 que, conforme testemunhos preservados por pessoas próximas, Lola deixou de sentir fome e sede. Desde então, teria passado a receber apenas a comunhão diária. Os relatos também afirmam que ela praticamente não dormia, dedicando as madrugadas à oração.

Romarias atraíram milhares de pessoas

A fama de sua vida de oração e do suposto jejum absoluto ultrapassou os limites da Zona da Mata mineira.

Durante a década de 1950, o sítio onde vivia tornou-se destino de romarias. Registros da época indicam que o livro de visitantes chegou a contabilizar mais de 30 mil pessoas em um único mês, atraídas pelo testemunho de fé e pela curiosidade em conhecer a mulher que, segundo os relatos, vivia apenas da Eucaristia.

Processo de beatificação

O reconhecimento da importância espiritual de Lola levou a Igreja Católica a abrir, em 2005, o seu processo de beatificação.

Com isso, ela recebeu o título de Serva de Deus, primeira etapa do caminho oficial rumo à possível canonização. O processo foi iniciado pelo então arcebispo de Mariana, Dom Luciano Mendes de Almeida, e busca investigar detalhadamente sua vida, suas virtudes e os testemunhos relacionados ao caso.

Outro aspecto considerado incomum foi a autorização concedida por um bispo da época para que o Santíssimo Sacramento permanecesse em seu quarto, permitindo que Lola realizasse adoração permanente devido à impossibilidade de frequentar regularmente a igreja.

Interesse científico

Além do aspecto religioso, a trajetória de Lola também desperta interesse acadêmico.

Pesquisadores do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), analisam documentos históricos, relatos médicos e testemunhos relacionados à sua vida, buscando compreender o fenômeno sob diferentes perspectivas.

Espaço preserva memória da Serva de Deus

Atualmente, o antigo sítio onde Lola viveu, em Rio Pomba (MG), passou a se chamar Recanto Sítio da Lola e tornou-se um importante ponto de turismo religioso da região.

O local é acompanhado pela arquidiocese responsável e recebe visitantes interessados em conhecer a história da Serva de Deus. O quarto onde ela permaneceu por décadas em oração e, segundo os relatos, em jejum absoluto, foi preservado e pode ser visto através de uma vitrine de proteção.

Independentemente das interpretações sobre os acontecimentos de sua vida, Floripes Dornelas de Jesus permanece como uma das figuras religiosas mais conhecidas da história recente de Minas Gerais, reunindo fé, devoção e interesse científico em torno de uma trajetória que continua sendo objeto de estudos e peregrinação.